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Çairé de Ontem e de Hoje
Written By Unknown on terça-feira, 11 de setembro de 2012 | 11:12
Seguindo a natureza da maioria das tradições religiosas, o Çairé perdeu força, foi se adaptando aos novos tempos e hoje mantém apenas vestígios da centenária festa religiosa, uma das mais antigas da Amazônia, já praticada pelos índios no século XVII. Hoje, guarda apenas seu simbolismo, dentre eles a presença do mastro, que na festa do Çairé de Alter-do-Chão são dois: o do Juiz e o da Juíza da Festa. A partir de 1973, data da reativação da festa após 30 anos de paralisação, o Çairé deixou de ser organizado pela igreja católica e passou a ser conduzido por uma coordenação constituída pelos próprios moradores da vila. Com o passar dos anos, os organizadores decidiram introduzir algumas alterações nos tradicionais festejos do Çairé. As danças folclóricas juninas passaram a fazer parte da festa, e a data da sua realização deixou de ser por ocasião das festas religiosas de Nossa Senhora da Saúde, em dezembro, para acontecer em junho. Seu significado religioso foi adquirindo roupagem de folguedo junino. A partir daí, as mudanças foram mais freqüentes. Não só de data (dezembro, junho, julho, setembro), mas, principalmente, de concepção. Em 1997 foi transferida da pequena praça em frente à igreja para a recém construída, ampla e abandonada Praça do Çairódromo (ainda não concluída até hoje), com direito a shows dos botos Tucuxi e Cor de Rosa, bem ao estilo dos bois de Parintins. Trocou o S (airé) pelo Ç (airé), deixou de ser uma festa concebida e mantida pela comunidade para ser absorvida pelo poder público, ficando totalmente dependente da Prefeitura de Santarém, submissa ao erário que só às vésperas da festa começa a borrifar os R$ necessários para a sua realização. Quando chegam os artistas plásticos e os ferros velhos do ano passado “guardados” em volta da Praça são transformados em novas alegorias. Assim o Çairé deixou de ser uma festa eminentemente cultural, organizada e conduzida pela população local – com pouco poder de atração do seu visual cênico – para se transformar em festa de entretenimento, um produto turístico que precisava de brilho para ser comercializado. O Çairé original, com todo o seu simbolismo, foi devorado pela rivalidade entre as torcidas do Tucuxi x Cor de Rosa. Tratado agora como negócio deveria gerar lucro para manter a estrutura do espetáculo, mas, pelo visto, isto não vem acontecendo. A mistura dos botos, shows de artistas importados e as cada vez mais desprestigiadas ladainhas do Çairé, transformaram a tradicional festa da Vila num autêntico “Samba do Crioulo Doido”, criação de Sérgio Porto, saudoso Stanislaw Ponte Preta. E assim vem acontecendo há 16 anos. Pela importância cultural que o Çairé representa, com história fartamente registrada por renomados folcloristas brasileiros, deveria ser estudada a possibilidade de desvinculá-la do festival dos botos e shows de artistas. Ela possui luz própria. Há espaço, público e calendário disponíveis em Alter-do-Chão para as duas festas, sem necessidade de se amesquinhar o Çairé. Voltaria a ser tratado como cultura popular, incentivado pelo aparato governamental, com investimentos sem fins lucrativos. Bom tema para um debate que pode ser conduzido pelo município através da Coordenação do Çairé e das Secretarias de Cultura e Turismo. Debate que no final pode até chegar à conclusão que o Çairé deve continuar assim mesmo. - – - – - – - – - – - – - – - – - – - – - – - – - – - – - – - – - - * Santareno, é engenheiro florestal da Emater e diretor do Instituto Cultural Boanerges Sena.
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